Conto n.º 8 do livro de contos
Do desconserto ao concerto - de João José Santos
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8. Sofrer por
amor
O Paulo fazia trinta e quatro anos. Quis comemorar o aniversário
com os amigos, que eram muitos e variados nas suas idiossincrasias.
Já nos conhecíamos há doze anos. Enviou convites por mensagem só
aos amigos mais chegados, esclarecendo depois, pelo telemóvel, aos
que confirmaram a presença:
— Pá... é uma coisa simples... Já combinei
tudo lá no bar. São umas vinte pessoas. Juntam-se umas quatro ou
cinco mesas. Encomendei ao dono do bar cinco garrafas de Vinho do
Porto Tawny
e um grande bolo de aniversário. Isto fica por minha conta. O que
quiserem beber ou comer além disto, será pago individualmente.
-
O meu amigo juntou dezasseis pessoas naquele
aniversário. Sentaram-se distribuindo-se por três mesas, que o
dono do estabelecimento enfileirou. Foi nesse ambiente
festivo que conheci o contabilista José Gomes. Estávamos à mesma
mesa: eu, o Gomes, a Cátia, um casal e o aniversariante. Nenhum de
nós se conhecia, à excepção do aniversariante, obviamente.
-
O Paulo tinha decidido partir o bolo logo no início da festa, assim
que chegassem todos os que tinham confirmado a presença. Esclarecia
ele:
-
— Pessoal, precisamos do bolo é antes, para
forrar o estômago, onde o Porto vai repousar... não é depois. No
fim da festa, cada qual sai à hora que entende... é uma
confusão... Por isso, é melhor assim.
-
Cantou-se "Parabéns a você" e
partiu-se o bolo. As rolhas do Porto Tawny
começaram a sair.
-
Uma hora depois, a nossa mesa já tinha
despejado uma das garrafas e estávamos a encomendar a segunda, que
seria paga entre todos. O álcool produz efeitos diferentes
conforme o temperamento de cada consumidor. Pois ao Gomes dava-lhe
para chorar, saudoso dos amores que deixara para trás na vida.
Começou por nos confessar que estava apaixonado por uma vizinha,
uma mulata lindíssima, filha de angolanos, mas nascida na Damaia.
-
— Temo-nos visitado com frequência... —
Dizia ele com um brilho de Vinho do Porto no olhar.
-
— Gomes, o garanhão! —
Dizia um dos convivas alegremente, para se meter com ele.
-
— Porque não a trouxeste, Gomes!? Tiveste
medo que ta roubássemos!? — Gracejou Paulo.
-
— Ela não podia, Paulo. É enfermeira. Hoje
faz a noite no hospital. Pá, temos uma química...! As coisas estão
a correr bem. Isto é paixão, é sonho, nem sei que vos diga.
-
Contudo, acrescentou repentinamente:
-
— Mas estou triste...
-
Intervim surpreendido:
-
— Ó Gomes, se estás caidinho por ela, e ela
por ti... devias estar feliz... Não!?
-
— Não me entendes, pá! Se vocês soubessem
de duas situações amorosas por que passei na vida... Sim, ainda
sou jovem, mas acreditem que já sofri muito...
-
A Cátia, já bem alegre e divertida,
incitou-o, tomando uma expressão piedosa:
-
— Tadinho...! Conta, Gomes! Conta... Nós
enxugamos-te as lágrimas... Não te deixamos sair daqui se não
contares!
-
O ambiente era alegre e folgazão. O Porto
continuava a correr. O bolo já tinha desaparecido.
-
— Está bem. Mas aviso que foram duas
situações que me quebraram o coração. —
Revelou o Gomes adoptando uma postura séria que lhe fez de imediato
duas rugas de expressão entre as sobrancelhas.
-
— Pobrezinho... Conta, conta... —
Pedia a Cátia a morrer de curiosidade.
-
Então o Gomes levou aristocraticamente o balão à boca, e
contou-nos a seguinte história:
-
«Até aos dez anos, convivi de perto com
um único animal, o Tareco, o gato da minha avó. Eu e o Tareco
fomos criados em casa dela.
-
O Tareco era um gato vulgar, cinzento malhado, como muitos gatos
brigões que enchem os becos de Lisboa... como vocês sabem. Nasceu
no mesmo ano que eu.
-
O Tareco e eu sempre tivemos, de forma implícita, um contrato de
não interferência e de não agressão. Só a minha avó tratava
dele. Boa comida, água limpa, serradura para as suas necessidades
íntimas, enfim, nós éramos pessoas simples do povo, mas o Tareco
podia-se considerar um gato de classe média. O diabo do gato era um
ingrato, pois pagava o bom trato com que a minha avó o agraciava
com arranhadelas constantes. As pernas da minha avó tinham sempre
algum arranhão do Tareco, por vezes vários arranhões. Era assim
que o brigão do gato a marcava com a sua chancela...!
-
Aos catorze anos, mudei de casa da minha avó para casa da minha
mãe, que entretanto tinha regressado de França. Eu ainda era muito
jovem, mas o Tareco, com a mesma idade, era um gato velho. Morreu
nem soubemos de quê. A minha avó diagnosticou:
-
— Então... Zezinho... morreu de velhice...
foi o que foi...
-
Pareceu-me que a resposta da minha avó não
era menos científica do que a do médico que havia pouco tempo me
tinha diagnosticado uma doença desta maneira:
-
— Jovem, você tem uma virose.
-
Velhice, virose ou outro nome... é igual. Eu
adoeci e curei-me, o Tareco morreu sem adoecer.
-
Até
aos vinte e cinco anos, não convivi de perto com outro animal, e
por isso não precisei de fazer pactos de não interferência e de
não agressão. A minha mãe só gostava de peixes, peixinhos de
aquário. Ora, isso não é um animal. Não acham!? Um peixinho de
aquário é uma massa colorida de formato fusiforme, com deslocação
própria... Uma espécie de tamagotchi, de autómato... sei lá... É
qualquer coisa que não mia, não ladra, não mostra ferocidade, nem
nos olha com ternura. Só se desloca, come e morre. Desculpem a
minha falta de sensibilidade para os animais naquele momento da
minha vida, mas as pernas da minha querida avó eram o motivo à
vista.
-
Aos vinte e cinco anos casei com a Ana. Um dia,
a minha mulher levou um gatinho pequenino lá para casa. Se ela me
tivesse revelado a intenção de trazer tal hóspede para nossa
casa, tê-la-ia impedido com todas as minhas forças. Mas ela
conhecia-me. Quando cheguei a casa, entrei na sala de jantar, e vi
um gatinho siamês do tamanho de metade da minha mão. O bichano
olhou para mim, deu três saltos ágeis, entrou no tubo de um novelo
de croché já totalmente gasto, e ficou preso lá dentro. Pousei a
pasta numa cadeira e fui libertar o siamês que se debatia, não
conseguindo avançar nem recuar. Uma vez liberto, olhou para mim, e
deu um grande salto que chegou às minhas coxas.
-
Quando a Ana chegou da cozinha, estava eu
sentado no sofá, de gato ao colo.
-
— Ah...! Já se conhecem...! Tico, este é o
Zé, o teu dono. Zé, este é o Tico, o teu gatinho de estimação.
-
O gatinho miou baixinho, enroscando-se
confortavelmente, como um novelo, por dentro dos meus braços.
-
— Que hei-de dizer...!? —
Exclamei resignado.
-
Esclareceu a Ana:
-
— Conhecendo a história do Tareco da tua
avó, pensei que esta seria a melhor maneira de começares a
estabelecer uma relação de amizade com o mundo dos felinos.
-
E o Tico lá ficou. Antes de eu chegar a casa,
já ouvia o miar dele. Entrava, e ele miava à minha volta
contando-me as novidades do dia. Onde eu me sentasse, ele estava por
perto. Depois de jantar, se eu me sentasse num sofá a ver
televisão, ele saltava para o meu colo. Se eu ficava no escritório
a trabalhar, ele pulava para cima da secretária e ali ficava
deitado, com o focinho voltado para mim, a ver-me trabalhar. Eu ia
tomar duche, o Tico ficava à porta da casa de banho, como se me
estivesse a guardar. Eu deitava-me, e ele deitava-se aos pés da
cama.
-
Passaram quatro anos. A minha relação com o
Tico era melhor do que aquela que criei com a Ana. Ambos sabíamos
que nos tínhamos precipitado. Éramos pessoas muito diferentes.
Passado o fogo da paixão, não nos suportámos mais, até que nos
resolvemos pelo divórcio de comum acordo.
-
Entendemo-nos quanto à divisão dos bens e
quanto a todos os pormenores da separação definitiva. No último
dia, ela disse-me:
-
— Fui eu que trouxe o Tico, e ele está
habituado a esta casa, por isso eu fico com ele.
-
— Não é justo! — Gritei eu. Ao fim e ao
cabo, eu defendia algo semelhante aos direitos paternais.
-
Acrescentei firmemente:
-
— O Tico sempre gostou mais de mim do que de
ti! Ele ficará melhor comigo!
-
— Não o levas! — Decidiu ela. — Se não
queres assim, não há divórcio!
-
Fiquei perplexo. Não sabia o que era pior, se
continuar a viver com a Ana, cuja presença eu já não suportava,
ou sem o Tico. Tive que abdicar do meu querido amigo. Quatro anos de
companheirismo com o gatinho siamês terminavam devido à frieza de
uma esposa déspota e insensível.
-
Mudei de casa e fiquei só. Durante o primeiro
mês chorei muitas vezes, lembrando-me com saudades de tantos
momentos que passámos juntos. Refiro-me ao Tico, é claro, e só ao
Tico.
-
Passado cerca de um ano, mudei também de
emprego. Uma empresa de importações e exportações precisava de
um contabilista com o meu perfil. Pagavam mais, e lá fui eu. Logo
no primeiro dia de trabalho, conheci uma cliente que me deixou
embasbacado. Era uma senhora mais velha que eu, com trinta e sete
anos, soube eu depois. Era alta, loira, com aspecto de alemã, e
tinha uns olhos verdes que faziam cintilar tudo onde pousassem.
Deslocava-se como se lhe desse vento dos dois lados, ou como se
procurasse equilíbrio no convés de um navio. Era empresária e
usava os serviços da nossa empresa para exportar vinhos para o
Brasil. Apresentámo-nos, ela deu-me algumas informações
comerciais necessárias, e despedimo-nos com um aperto de mão
demorado, e muitos sorrisos. Reparei que
não tinha aliança. Seria possível!?
Um peixão daqueles descomprometida? Era sorte a mais!
Pensava eu. Devia ser comprometida
mas não casada.
-
Correu uma semana desde aquele primeiro
encontro. Um dia, pelas onze horas da manhã, passaram uma chamada
telefónica para o meu gabinete. Estranhei, porque raramente recebo
chamadas no trabalho. A recepcionista esclareceu:
-
— É a dr.ª Rute Abrunhosa, dos Vinhos
Abrunhosa. Ela quer falar consigo. Falou-me de uns catálogos.
-
— Pode passar a chamada. Obrigado. —
Respondi eu à colega.
-
— Sr. José Gomes, como está?
-
— Bem, obrigado. E a doutora?
-
— Muito bem, obrigada. Desculpe incomodá-lo,
sr. Gomes. Já estão prontos os catálogos que devem ser enviados
para o Brasil, mas não tenho quem mos leve aí. São pesados, e o
moço que faz estes serviços está doente há dois dias. Vocês têm
alguém que os venha cá buscar?
-
— Por acaso não, doutora, não temos mesmo.
Lamento. É um tipo de serviço que não prestamos.
-
— Oh... que aborrecimento... sr. Gomes... Eu
até os levava, mas não consigo transportar tanto peso. E não
tenho ninguém que o possa fazer. São duas caixas grandes...
cheias. E eles têm que ser entregues hoje... aí na sua empresa.
-
— Não se preocupe, doutora, eu mesmo irei aí
buscá-los. Não está no âmbito das minhas funções, mas temos
que facilitar o trabalho uns aos outros.
-
— Que bom, sr. Gomes! Que amabilidade a sua!
Então venha, por favor, pelas dezassete horas. Dá-lhe jeito a essa
hora?
-
— Pelas dezassete horas estarei aí.
-
— Obrigada! Prazer em ouvi-lo!
-
— De nada, doutora, é um prazer trabalhar
consigo. Até logo!
-
Um contabilista a fazer de moço de recados.
Pensava eu. Mas como lhe poderia
dizer que não? Ainda me despediam por não ter facilitado a vida a
um dos nossos melhores clientes. Foi melhor assim.
Era esta a minha justificação profissional, mas na minha mente
impunha-se aquela imagem de mulher alemã, alta, torneada, loira, de
olhos glaucos.
-
Cheguei à empresa Vinhos Abrunhosa à hora
combinada. A recepcionista, depois de me ter anunciado à gerente e
proprietária da empresa, pediu-me que aguardasse um pouco ali na
recepção. Aguardei apenas uns três minutos. A dr.ª Rute
Abrunhosa veio pessoalmente encaminhar-me ao seu gabinete.
-
— Muito obrigado por tanta amabilidade, sr.
José Gomes... — Dizia ela enquanto rolava as ancas à minha
frente na direcção do gabinete. — Se não fosse o senhor, não
sei que faria.
-
— Ora essa... de nada... gostamos de tratar
bem os nossos clientes. — Respondi eu com o ar mais profissional
que me era possível.
-
Entrámos no gabinete. Que decoração! Uma
longa secretária do século XIX, de pernas torneadas, como
a dona pensei eu, ocupava quase toda
a parede do fundo, contrastando com esta, pois as paredes eram
impecavelmente brancas, enquanto o mobiliário era todo de cor de
cerejeira, com uns embutidos a cairem para o bordô mais escuro.
Sobre a secretária impunha-se um grande candeeiro clássico, que
projectava uma luz discreta sobre o tampo. A empresária sentou-se
com naturalidade à secretária, numa cadeira de espaldar não muito
alto, oferecendo-me o lugar na cadeira à frente dela. Sentei-me.
Era uma cadeira de braços curvos e assento estofado, semelhante à
dela, mas um pouco menos imponente, e deliciosamente confortável.
Na parede por detrás da empresária exibiam-se os troféus ganhos
pela empresa. Garrafas de vinho de formatos variados, com lindos
rótulos, copos e cálices timbrados com o nome da empresa, taças,
medalhas e todo o tipo de condecorações ocupavam quatro discretas
prateleiras de vidro, pouco profundas, por onde se espraiava uma luz
ténue, vinda de projectores ocultos abaixo do tecto, que
circundavam todo o gabinete. Do meu lado esquerdo, via-se uma
estante recheada de bons livros, com amplos armários da parte de
baixo. Seguia-se a porta de entrada, na mesma parede. Em frente à
porta, uma mesa oval com oito cadeiras mostrava que a doutora Rute
fazia as reuniões da empresa no próprio gabinete. Na parede oposta
à estante havia uma pequena porta e uma grande janela corrediças,
que davam para um delicioso jardinzinho interior com muito verde.
Três grandes vasos com arbustos de espessa folhagem completavam a
decoração.
-
— Que lindo gabinete, doutora! — Comentei
com espanto e sinceridade, oferecendo o meu sorriso mais natural.
-
— Obrigado, sr. Gomes. Foi todo projectado e
decorado por mim.
-
— Tem bom gosto....! — Acrescentei
sorrindo.
-
— Fico contente que alguém goste. O meu
marido não gostava. Aliás, ele não gostava de nada do que eu
fazia. Acho que nunca gostou de mim. — Dizia ela evocando as suas
memórias infelizes.
-
— Não diga isso... — Disse eu com emoção
genuína. — Não é possível que ele não goste de si.
-
— Obrigado, sr. Gomes. Você é um
cavalheiro. — Agradeceu ela, afastando uma madeixa coquete que lhe
caía no rosto. Endireitou as costas e projectou levemente os seios,
num leve menear de ombros.
-
— Uma senhora tão fina, tão elegante... tão
bonita... — Arrisquei.
-
— Não me faça corar, sr. Gomes... — Disse
ela soltando uma gargalhada juvenil, e mexendo-se mais na cadeira. —
As suas palavras, ainda mais que a sua bondade em vir buscar os
catálogos, fazem-no merecedor de um lanche.
-
— Mas... não é necessário, doutora...
-
— Gosta de chá de cidreira e torradas com
manteiga?
-
— Gosto muito. — Respondi eu.
-
Ela levantou o telefone, e pediu à
recepcionista:
-
— Júlia, traga chá de cidreira e torradas
para dois, por favor. O sr. Gomes vai lanchar comigo no jardim.
-
Júlia entrou no gabinete três vezes, preparou
o lanche, saindo definitivamente. Sentámo-nos a uma mesinha de
ferro forjado, pintada de branco, com tampo rendilhado coberto de
vidro. As cadeirinhas a condizer.
-
A meio do lanche e da conversa em que a doutora
me contava a displicência do marido para com ela, comentei o
comportamento dele:
-
— Não, Rute! Realmente isso não se faz...!
-
— Tem razão, também acho que uma amizade
não se constrói com "doutora" para aqui, e "senhor"
para ali. Um simples "Rute" e "José" chegam.
Não acha?
-
— Perfeitamente... Mas até me saíu sem
pensar... — Desculpei-me.
-
— Que bom... Ainda bem que há coisas que se
fazem sem pensarmos nelas. — E olhou-me de lado, de baixo para
cima, sorrindo, ficando séria de repente, olhando-me profundamente
nos olhos.
-
— Concordo plenamente... — Anui,
correspondendo àquele olhar felino e, passando a minha mão direita
levemente sobre a mão esquerda dela, comentei:
-
— O
seu marido estava louco quando a deixou...
-
Ao que ela esclareceu:
-
— Na realidade, fui eu que o deixei.
-
Ela limpou os lábios ao guardanapo com
delicadeza, manteve a mão esquerda sobre o tampo da mesa, sentindo
o frio do vidro, e voltou a olhar para mim, desta vez rapidamente.
Mas o alvo deste olhar tinha sido a minha boca. A minha mão direita
aventurou-se a uma carícia sobre o ombro dela, o que a levou a
olhar novamente para mim, novamente para a minha boca, desta vez
demorando-se no olhar. Aproximei-me dos lábios dela, e começámo-nos
a beijar com ternura, percorrendo os lábios vagarosamente, enquanto
a minha mão esquerda sabia o que fazia no pescoço dela. Rute
fechou os lindos olhos glaucos, e eu fechei os meus. Quando os abri,
vi à entrada do jardinzinho, vindo do escritório, um grande pastor
alemão, com um pêlo homogeneamente castanho, muito bem tratado.
-
— Está bem guardada... — Comentei
rindo-me, mas atento à presença do cão.
-
— É o Roque! — Disse ela rindo-se também.
— Está na hora de eu sair. Saio sempre às dezoito horas, e a
empregada que cuida dele solta-o sempre a esta hora. — E
virando-se para o cão:
-
— Anda cá, Roque... Lindo menino... Este é
o José. O José é amigo. Dá um beijinho ao José!
-
Dito isto, o cão pousa as enormes patas
dianteiras sobre as minhas calças e dá-me uma lambidela no queixo.
Fiz-lhe festas do dorso ao lombo. Nesse momento, eu e o Roque
tornámo-nos grandes amigos.
-
Carreguei o carro com duas caixas grandes,
cheias de catálogos. Sem nada combinarmos, voltámos ao tratamento
cerimonioso ao pé dos empregados dela, e despedimo-nos com um
gentil aperto de mão.
-
Andei enrolado com a Rute durante meses. Nunca
ninguém soube, nem na empresa dela, nem naquela em que eu
trabalhava.
-
Um
domingo, após uma noite em que pouco dormimos devido à insaciedade
da minha ninfa loira, acordámos pelas onze e meia da manhã.
Tomámos o pequeno-almoço, enrolámo-nos na cama novamente, tomámos
duche, vestimo-nos e, quando me preparava para sair, disse-me ela de
modo informal:
-
— Temos que conversar. Senta-te aqui um pouco
à mesa a beber um café.
-
Tirou uma bica para mim e outra para ela,
sentou-se e explicou-me que tínhamos que terminar a relação.
Fiquei surpreendido, mas tranquilo. Dizia ela que gostava de mim,
"de noite e de dia", mas que aquilo tinha que acabar.
Perguntei:
-
— Porquê?
-
— O meu marido quer salvar o nosso casamento,
e eu vou dar-lhe outra oportunidade. Ele ainda é sócio da empresa,
se bem que minoritário, e portanto tenho razões para acertar a
minha vida com ele.
-
Achei estranho, mas compreensível. O espaço
que eu ocupava na vida dela era o mesmo que ela ocupava na minha, e
chamava-se sexo. Muito e bom. Mas tudo tem um fim. Concordei, sem
mais explicações nem lamentações.
-
Levantei-me e apertei-lhe a mão como fazíamos
nas empresas. Ela correspondeu e sorrimo-nos como bons amigos. O
pior estava para vir. Dei dois passos para a porta, e vi o Roque vir
devagar, de cabeça baixa e cauda caída, na minha direcção. O
enorme pastor alemão tinha compreendido tudo. Olhou-me com o ar
mais triste que já vi no rosto de um animal. Ajoelhei-me
instintivamente, abracei-me ao Roque e chorei convulsivamente, com a
minha cara encostada à dele. Levantei-me, voltei a olhar para o
cão, e a carinha dele era de uma tristeza infinita. Dos olhos do
Roque tinham saído duas lágrimas que molhavam o seu lindo pêlo.
Chorava. O meu querido amigo chorava por saber que não me voltaria
a ver. Ainda consegui dizer:
-
— Adeus, Roque! Até sempre, meu amigo!
-
Saí muito triste, e até me esqueci de olhar
para a Rute. Isto aconteceu há
uns meses.
-
Neste
momento, eu e a Teresa, a enfermeira mulata de que vos falei,
estamos muito apaixonados. Ela tem um corpo de ébano maravilhoso, e
sabe como usá-lo. Gosto daquele exotismo africano. O problema é
que ela tem um lindíssimo gato Chartreux
de olhos amarelos chamado Piju, e um maravilhoso cão da Serra da
Estrela chamado Magnum. É aí que reside toda a minha infelicidade.
Pronto... agora já conhecem a minha triste história.»
Criou-se um
silêncio de alguns segundos à nossa mesa, onde estavam vazias duas
garrafas de Porto Tawny. Foi o aniversariante que quebrou o
silêncio:
— Então
tu não gostas de animais, pá!? Estás infeliz porquê?
— Gosto
sim... gosto muito... — Explicou o Gomes, chorando copiosamente,
com a voz embargada e de balão de Tawny na mão.
Acalmou-se
um pouco e acrescentou:
— Que
vai ser de mim...!? Quando acabar tudo entre mim e a Teresa, já
viram o desgosto que vou ter por me separar do Piju e do Magnum?
(FIM)